
«A verdade é que na parede por trás dela havia, sob o leão que decora as armas do Reino da Bélgica, um grande relógio, peça dominante do lugar, em que um ponteiro dos seus seis pés de comprido que girava num mostrador que já fora dourado, mas que a fuligem ferroviária e o fumo de tabaco tinham escurecido.
Durante as pausas na nossa conversa ambos reparámos que decorria imenso tempo antes que se escoasse mais um minuto e o que o movimento desse ponteiro era alarmante por se assemelhar a uma espada da justiça, embora contássemos com ele de cada vez que avançava para tirar ao futuro os sessenta avos da hora seguinte e logo se deter com tão ameaçador estremecimento que quase se nos parava o coração. […]
A toda a volta do átrio de acesso, talvez eu tivesse reparado, a meia altura das paredes, encontram-se uns escudos de pedra com espigas de milho, martelos cruzados, rodas aladas e outros símbolos onde o motivo heráldico da colmeia não representa, como à primeira vista poderia pensar-se, a natureza ao serviço do homem, nem sequer o afã como virtude social, mas sim o princípio da acumulação do capital. E sob todos estes símbolos, disse Austerlitz, representado pelos ponteiros e mostrador do relógio, o Tempo domina. Nos vinte metros acima da escadaria cruciforme que liga o foyer às plataformas da estação, único elemento barroco de todo o conjunto, encontra-se pois o relógio, precisamente no ponto onde a imagem de César se situava no Panteão, na linha que prolonga a do portal; como senhor da nova omnipotência, foi colocado por cima do escudo real e da divisa Endracht maakt macht, a união faz a força. Do ponto central ocupado pelo relógio na estação de Antuérpia observam-se os movimentos de todos os viajantes e, inversamente, todos os viajantes tinham que olhar para o relógio e por ele regular as suas actividades. Com efeito, disse Austerlitz, até à sincronização dos horários de caminho de ferro, os relógios de Lille e de Liège davam horas diferentes dos de Gent ou Antuérpia e só com a regularização dos meados do século XIX o tempo passou a dominar o mundo sem contestação. Só seguindo o curso por ele prescrito conseguimos transpor os espaços gigantescos que nos separam uns dos outros. Com efeito, disse Austerlitz passado um bocado, ainda hoje há algo de ilusionista e ilusório na relação com o tempo e o espaço quando viajamos e é por isso que, de cada vez que regressamos, não temos bem a certeza de termos realmente estado fora. – Desde o princípio me espantou o modo como Austerlitz ordenava as suas ideias enquanto falava, como, por assim dizer, era capaz de formar as frases fluidas a partir da dispersão e como, para ele, a mediação narrativa do seu conhecimento das coisas se tornara uma abordagem gradual de uma espécie de metafísica da história em que o que é recordado ganha de novo vida. É para mim inesquecível que, em conclusão aos seus comentários sobre o fabrico dos grandes espelhos da sala de espera, ele, levantando uma vez mais os olhos para a superfície mate, fizesse a si próprio a pergunta combien des ouvriers périrent, lors de la manufacture de tels miroirs, de malignes et funestes affectations à la suite de l’inhalation dês vapeurs de mercure et de cyanide.» pp13-14

Sublinho algumas linhas fortes deste trecho:
- Um edifício erguido a mando do Rei Leopoldo II, graças à riqueza da exploração colonial, encontra um paralelo num templo antigo. César é substituído pelo relógio omnisciente – e um relógio destes lembra de facto um enorme olho – ladeado por uma colmeia que não representa outro cimento social que não seja o princípio abstracto de acumulação. No próprio espaço, quem circula regula a sua actividade por este olho gigante.
- Mas também recorda a morte, ou a perda da saúde, como um elemento recalcado deste universo regulado.
De momento concentremo-nos no tempo mecanizado, padronizado, homogéneo e vazio, como elemento fulcral da modernidade.
O texto de Georg Simmel «As metrópoles e a vida mental», escrito quase 100 anos antes de Austerlitz – num tom mais entusiasta – dá conta desse elemento, associando-o à generalização da economia monetária e à transformação dos processos de subjectivação ou individuação:
«Supondo que todos os relógios de Berlim subitamente se desacertassem, mesmo que fosse só por uma hora, toda a vida económica e toda a comunicação da cidade entraria em ruptura por um longo período de tempo […]
A pontualidade, a capacidade de cálculo e a exactidão são impostas à vida pela complexidade e pela extensão da existência urbana e não estão apenas relacionadas de maneira mais íntima com a sua economia monetária e o seu carácter intelectualista. Estas características devem igualmente matizar os conteúdos da vida e favorecer a exclusão daquelas características e impulsos irracionais, instintivos e soberanos que visam determinar o modo de vida a partir do interior, em vez de receberem do exterior a forma geral da vida esquematizada de maneira precisa. Muito embora as existências soberanas e impulsivas não sejam de todo impossíveis na metrópole, elas são, contudo, opostas à típica vida da cidade.»
Apesar desta dicotomia problemática – «interior» e «exterior», como se ao primeiro coubesse exclusivamente o instinto e ao segundo a razão e o cálculo – podemos avançar, neste texto, sobre aspectos importantes:
- A influência da padronização do tempo na regulação do espaço urbano e na complexidade das interacções, que por sua vez implicam um grau de especialização cada vez maior e uma interdependência crescente de acções.
- O grau absurdo desta especialização. Podemos pensar num operador de máquina que passa o dia inteiro numa rotina automatizada, ou então no exemplo fornecido por Simmel, o Quatorzième parisiense, cujo trabalho seria simplesmente fazer número nas mesas com treze convivas).
- Simmel sublinha também a influência que este novo modo de vida tem na mente, interferindo profundamente nos processos de individuação (embora não se fale ainda de uma bio-política, ou de habitus). Como se cada um incorporasse um relógio: não apenas para as tarefas comuns mas para a regulação dos próprios afectos e emoções. Em certa medida, quando Simmel fala das estratégias de sobrevivência do habitante das metrópoles, face ao que ele chama de «intensificação da estimulação nervosa», parece por vezes sugerir a impessoalidade do autómato (e recordo que os primeiros autómatos estão associados à relojoaria). Que esta impessoalidade possa gerar também um movimento contrário, de procura feroz de processos de individuação, será certamente importante para os nossos estudos – se tocarmos a atitude do snob, do dandy, do poeta e do artista que dão bofetadas no gosto do público – mas por agora deixamos isso em suspenso, para podermos desenvolver as ideias sobre os contrastes entre o mundo moderno da metrópole e o mundo pré-moderno.
- No mundo pré-moderno o cálculo do tempo sempre ligou o tempo ao lugar. "Quando" ligava-se intimamente a "onde" e era identificado por ocorrências naturais regulares. Ao dizer “Lugar" não confundimos com “Espaço” já que o termo se prende à ideia de localidade, um território físico específico, habitado por uma determinada comunidade. Nas sociedades pré-modernas, tempo e lugar coincidem amplamente e a vida social é regulada pela "presença" ou pelo contacto próximo de certos eventos, muitas vezes naturais.
- A invenção do relógio mecânico e a sua difusão generalizada (um fenómeno que tem início no final do século XVIII) tiveram um papel chave na separação entre o tempo e o espaço. O relógio expressava uma dimensão uniforme de tempo "vazio", permitindo uma quantificação precisa de blocos do dia, transformando o tempo em mercadoria: a "jornada de trabalho”, paga à hora, racionaliza a troca do tempo por dinheiro (Uma boa parte da arte do século vinte, procura um ouro/fora do tempo radicalmente distinto dessa troca).
Na modernidade, o lugar torna-se cada vez mais fantasmagórico: os locais são completamente penetrados e moldados por influências distantes. O que estrutura o local não é simplesmente o que está presente na cena; a "forma visível" do local oculta as relações distanciadas que determinam a sua natureza (se pensarmos na penetração muito mais recente da publicidade, da televisão ou da net nos espaços públicos temos o exemplo mais actualizado desta fantasmagoria).
Esta nova forma de entender o espaço resulta em última análise da exploração total do mundo por viajantes e exploradores. O mapeamento progressivo do globo que levou à criação de mapas universais e estabeleceu o espaço de modo neutro, para lá de qualquer regionalismo particular.
Relógio e mapa. Poderíamos considerá-los as peças chaves de todo o processo de abstracção que conduz à actualidade (por isso uma estação de caminho de ferro em Antuérpia – uma das antepassadas mais ilustres das metrópoles da modernidade, onde se desenvolveu uma das primeiras bolsas de valores – é o templo secularizado da modernidade, onde vamos encontrar esse historiador chamado Austerlitz).
Porque é que a dissolução do local e a separação do tempo e do espaço são cruciais para a extrema aceleração da modernidade?
Em primeiro lugar, são condições de um processo de deslocação – ou, se preferirmos, de desterritorialização – que rompe as restrições, os hábitos ou códigos locais e marcam o declínio das tradições.
Segundo: ligam-se ao desenvolvimento da gestão e administração moderna, proporcionando uma base comum para novas organizações (inclusive os grandes estados modernos). A influência determinante da burocracia nas formas de organização do poder, estudado pelo sociólogo Max Weber, contrasta com as ordens pré-modernas (Veremos noutras aulas como isto afecta também a arte, sobretudo quando estudarmos um pouco a obra de Marcel Broodthaers).
Em terceiro lugar, ganha relevo a historicidade da modernidade: o mapeamento total e a padronização do tempo permitem formar a ideia de um mundo global. Embora a "história" - enquanto apropriação sistemática do passado para ajudar a modelar o futuro - seja tão antiga como o surgimento da escrita nos primeiros estados agrários, o desenvolvimento das instituições modernas deu-lhe uma nova direcção. Um sistema de datação padronizado, agora universalmente reconhecido, possibilita uma apropriação de um passado coerente e unitário, (embora possa estar sujeito a interpretações contrastantes, ou ser denunciado como ficcional). Dado o mapeamento geral, o passado passa a ser mundial.
Neste processo não é só a narrativa da história que se transforma. A própria linguagem sofre alterações substanciais com as novas coordenadas da industrialização. Atestamo-lo no contínuo desaparecimento de línguas e dialectos (se virem os filmes da Trilogia da Vida de Pasolini, ou melhor se ouvirem com atenção, reparam que as falas são um entretecido de dialectos incrível e esse exemplo particular do realizador passa em filme as tensões provocadas por todo este processo).
Lendo o livro Comunidades Imaginadas, de Benedict Anderson, ficamos com uma boa ideia sobre o modo como uma das primeiras indústrias modernas – e uma das mais fundamentais – alterou radicalmente as línguas, no sentido da aglutinação e do apagamento de traços regionais. Falo naturalmente da imprensa e da tipografia e do modo como a palavra mecanizada passou a ligar milhões. Se pensarmos que também aqui existe uma alteração de tempo e do espaço (ambos se tornam consideravelmente mais curtos, do ponto de vista da produção e difusão da palavra) facilmente percebemos o seu impacto: o rápido e continuado acesso aos mesmos textos, por parte de populações espalhadas por áreas cada vez mais vastas, cimenta as regras das línguas modernas e apaga regionalismos. Lugares que nunca antes tinham estado ligados, partilham agora personagens reconhecíveis por todos – sem que no entanto a esmagadora maioria as conheça ou se tenha cruzado com elas, sequer – ajudando à formação das nacionalidades, que podemos descrever como comunidades imaginadas, bastante abstractas, movendo-se no contínuo do tempo, seguindo uma história com um modelo semelhante ao da narrativa do romance: enredos cruzados, personagens e acções que entram e saiem de cena sem que se quebre uma continuidade geral, o avanço de uma história comum que se vai consolidando (se repararem ainda é esse o modelo vigente: para nós os nomes de políticos, jogadores de futebol, cantoras, etc. constituem referências familiares). Esta familiaridade abstracta é obviamente desnivelada e cria formas de separação que vão ser amplamente criticadas (veremos isso com o Situacionismo).
Tudo isto coloca em jogo a própria cultura – e emprego agora pela primeira vez este termo, presente no título da cadeira.
Parece-me necessário clarificar, apenas um pouco, aquilo que podemos entender por cultura (se consultarem a Wikipédia verificam que teríamos assunto para um curso inteiro).
A palavra “cultura” ganha relevância com a própria modernidade. Apesar de remontar ao latim – collere, para designar a orientação do crescimento natural, como na agricultura, ou o culto de actividade religiosa – só na época moderna “cultura” começa a definir-se no sentido da educação ou da formação de um conjunto de conhecimentos, valores, hábitos partilháveis e transmissíveis entre gerações.
Mais ainda, na sequência das linhas anteriores, a cultura pode ser entendida como um elemento central da crítica aos próprios processos desencadeados pela industrialização ou pela modernidade. O próprio uso da palavra conhece uma intensificação assinalável com a modernidade.
Vejamos: se pensarmos em Schiller, a cultura é vista como o grau mais elevado de desenvolvimento humano, um horizonte de perfectibilidade que acompanha um processo de desenvolvimento harmónico – ou de jogo – das faculdades humanas dos instintos (razão e sentimento). De certo modo a cultura acaba por constituir-se como horizonte idealizado – que reúne, tantos séculos depois de Platão, o belo e o bom – a que todo o humano digno desse nome deveria aspirar. Nesse sentido toma a faceta de uma utopia estética, ou mesmo crítica, relativamente à incompletude do presente (que na especialização das diferentes esferas do trabalho ou do conhecimento teria tornado desarmónicas as acções humanas). Como escreveu o poeta na célebre Ode à Alegria, num futuro desejável estaria «reconciliado, o mundo todo» (texto que equipara o assassínio às Belas-Artes, de Thomas de Quincy, oferece a sombra irónica desta complementaridade entre o belo e o bom).
Se pensarem noutro autor alemão, Herder, encontram uma concepção distinta.
Criticando a visão de uma totalidade de valores universais, exemplo benigno de um grau de perfectibilidade superior – identificada com a civlização europeia e as suas potências dominantes – Herder defende as especificidades e a ideia de um plural – culturas e não cultura – atestado pela existência de vários modos de vida distintos, profundamente imbuídos na vida de comunidades mais arcaicas. Acaba por valorizar o exótico – ou, numa aparente ligação de extremos, a raiz mais local e específica da identidade (veremos como esta preocupação passará pelas vanguardas artísticas, criando uma tensão bastante grande entre esta utopia de raizes - por si só, um paradoxo - e uma vertente utópica universalista).
Os românticos alemães opõem Cultura a Civilização. A primeria seria autêntica, genuína, quase natural, nascendo de um fundo comum profundamente enraizado num povo; a segunda seria artificial, superficial, inautêntica, imposta por poderes estrangeiros (pela França que dominava os gostos da aristocracia europeia). Não sei se advinham o modo como estas questões puderam avançar pelo século dezanove – acompanhando as revoluções nacionalistas – e ao longo do século vinte e o modo como estiveram presentes nos conflitos extremos que o marcaram. Mas veremos também que a tensão entre a cultura e os processos traumáticos de esvaziamento do espaço e do tempo – ou se preferirmos de desterritorialização – encontra nas vanguardas outras possiblidades de relação, sejam de oposição, de antecipação e talvez mesmo de tentativa de superação.
Para além da cultura como utopia crítica, ou da cultura como um modo específico de vida colectiva, podemos conferir-lhe o uso mais corrente, e mais restrito, ligado à criação artística e literária. Mas mesmo este contém um gérmen de tensão. Porque a redução da cultura às artes transfere para este domínio toda as aspirações a que a sociedade, a política ou a religião não conseguem dar resposta (veremos noutra aula que algo desta perspectiva pode passar para a apologia da abstracção em pintura).
Reparem: fazemos agora um arco que nos liga ao tal processo de esvaziamento do espaço e do tempo produzido pela industrialização. A circulação cada vez mais intensa de pessoas e mercadorias, em intervalos de tempo cada vez mais curtos, regulados por sistemas de medição universais e abstractos, rompe o cimento social que a tradição assegurava (atenção que não há aqui nenhum lamento: a própria palavra tradição – traditio – comporta uma dose significativa de violência). As largas extensões cobertas pela imprensa permitem o aumento da circulação de palavras e imagens. Quase poderíamos dizer que a quantidade vai impor uma transformação na própria qualidade das relações ou do contacto com os objectos (é algo dito por Benjamin, quando critica a pretensão de reconhecer a fotografia como arte, sem na verdade ter em conta que a arte já está transformada pelos processos de mecanização em curso). Uma transformação que pode ser considerada empobrecedora por alguns - e em certa medida é, porque está implicada numa empobrecimento da experiência - mas que encerra virtualidades imensas.
O funcionamento do cinematógrafo, para dar um exemplo, prende-se de forma muito clara à questão do tempo moderno como sucessão de pontos uniforme e vazia. Não é de estranhar que os processos que a ele conduziram tenham passado pela cronofotografia de Muybridge ou Marey.


E. J. Marey
Estes meios de reprodução técnica, completamente mecanizados, estão intimamente ligados à possibilidade de medir o tempo por padrões cada vez mais minuciosos. (hoje em dia, se não me engano, é a frequência das ondas radioactivas do Césio que estabelece a medida do segundo, até à trigésima ou septuagésima casa decimal).
São também, praticamente desde o princípio – refiro-me ao cinematógrafo dos irmãos Lumiére ou ao Kinetoscope de Edison/Anderson–, pensados como produtos industriais, dirigidos ao consumo de massas.


Kinetoscope
Olhando a última imagem de hoje, feita por volta de 1872 - no entender da crítica e do público uma obra que fazia do seu autor o chefe dos impressionistas – podemos lembrar um dos ataques que sofreu: no meio da desordem de impressões e do mal acabado da pintura, a falta de tema e composição, a menina quereria fugir do quadro mas não podia porque tinha a grade a barrar-lhe a fuga. Ou uma outra caricatura: a jovem estaria a ver passar comboios – num estado de «monomania incurável». Na verdade em em vez de ridicularizar a imagem, semelhantes expressões só sublinham o seu interesse.
Terá sido uma das primeiras pinturas a representar o comboio. Curiosamente não deixa de retomar figuras da tradição da pintura como uma das Fiadeiras de Velazquez. O ar algo neutro, algo apreensivo da mulher que tem o livro no colo e o rosto da menina que se virou para ver os comboios fazem um jogo curioso de oposição. Como se tivessem atravessado o grande átrio da estação de Antuérpia e estivessem à espera. A mulher apreensiva, a menina curiosa. Manet não precisava de inventar fábulas, ou castelos no ar. A falta de imaginação que lhe é atribuída - e que ele próprio terá cultivado - é na verdade uma das incisões mais profundas no imaginário moderno.

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