Algumas imagens:


A instalação de I. Kabakov Red Wagon (1991).
A instalação representa a história da arte na União Soviética em três fases:
A primeira parte cobre os anos vinte e a primeira metade da década de trinta. Corresponde obviamente à estrutura de madeira, feita no estilo construtivista. Permite subir mas não leva a lugar nenhum, como se tivesse sido interrompida durante a construção.
A segunda parte corresponde ao vagão vermelho, uma caixa deitada com janelas substituídas por quadros pintados no estilo do realismo socialista, dos anos 30 – 50 durante o poder estalinista. No interior do contentor estende-se uma paisagem estática que serve de pano de fundo a um festival em que nada sucede, eterno presente de uma história que se terá realizado ali mesmo, naquele espaço (e no entanto há uma expectativa gorada que causa desconforto).
Finalmente, a terceira e última fase – as três últimas décadas da URSS – corresponde ao monte de detritos deixados após a construção da instalação: fim de festa. Kabakov, que viveu esta última fase, não deixa de ligá-la às anteriores, como se a sua perspectiva integrasse algo do tempo dos ciclos descritos. Os detritos seriam ainda as ruínas da história anterior. É um forma interessante de abordar as vanguardas porque se trata de um olhar retrospectivo mas não congelado. A ironia não deixa de implicar o presente.

Cartaz
Franz FerdinandO cartaz dos Franz Ferdinand tem certamente duas coisas em vista:
- A eficácia – actual, diríamos – do cartaz (fotmontagem, a cor plana, os tipos em tamanho crescente).
- A referência histórica e a tentativa de fazer recair sobre o grupo publicitado uma certa aura, artística e revolucionária (mas também de uma certa erudição algo irónica).

Cartaz de Rodchenko de 1924 – a mulher fotografada – Lili Brik
Maquete para um cartaz de publicidade à Lengiz, secção de Leninegrado da editora do estado, Gosizdat.
Maiakvoski e Rodchenko formam uma dupla de «construtores de anúncios». Na sua vasta produção contam-se os poemas aos armazéns Gum (A loja universal do Estado):
Não há tempo ou lugar para dúvida, GUM tem tudo, as mulheres gritam
Nas palavras de Rodchenko, este tipo de trabalho é estimulante não por causa do dinheiro – estamos no contexto da Nova Política Económica do pós-guerra – mas porque faz avançar a nova publicidade por todo o lado:
«Moscovo estava decorada com os nossos produtos» (as cartas e textos estão traduzidas em inglês e há um exemplar na biblioteca da Gulbenkian).
Reparem no estilo distintivo: para além do desenho simples e geometrizado há um pôr em acção dos objectos (nunca estão imóveis, nunca são colocados na imagem como ícones para contemplação).
Como se cada cartaz contivesse, uma espécie de apelo moral: Os objectos deveriam encarnar e transmitir os valores da revolução e do novo homem em formação.
Sabemos que as imagens do construtivismo foram integradas na história da arte e como tal são analisadas segundo modos característicos (proveniência, cronologia, autoria, moldura cultural, características formais, antecedentes, consequências, etc.). Sabemos também que o programa destas imagens visava uma transformação que deveria revolucionar, entre outras coisas, a própria ideia de arte, de história, de espaço público e do quotidiano.
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Lembrando as noções da vanguarda, entre a autonomia crescente ou o envolvimento político crescente (à falta de termos que permitam sintetizar a porosidade destas duas noções), escolhemos para hoje um dos exemplos mais expressivos da segunda.
Mas também aqui se conhecem divisões ou percursos distintos. No contexto das vanguardas russas, podemos distinguir pelo menos duas posições (seguindo uma formulação de Turowski). São já evidentes na exposição 0.10 realizada em Petrogrado em 1915, nas obras de Tatlin e de Malevitch.
A via de Tatlin – e posteriomente de Rodchenko – ligada ao INKhUK Instituto da Cultura Artística do Narkompros (Comissariado da Educação do Povo)
A via de Malevitch e El Lissitzky, ligados Instituto de Arte Popular de Vitebsk (e depois também ao ao INKhUK, VhUTEMAS e depois ao UNOVIS).
O primeiro defende uma utopia reista (do material, do concreto) o segundo uma utopia fenomenológica. No primeiro caso, o fito principal será produzir novos objectos, através da exploração e combinação de elementos formais. Não há nada de transcendente, simplesmente a vontade de criar novas relações e novas formas de acção.
Já a segunda via – no esteio do suprematismo – visa um estado de consciência para lá da percepção comum. O objecto funciona como uma espécie de signo avançado de outras dimensões.
Rodchenko, em 1915, produz desenhos com o compasso e tinta da china. Não há assunto, apenas desenho por linhas. Em composições posteriores explora relações de vazio e cheio, bem como as propriedades expressivas da cor. Mas o elemento fundamental reside na linha: «A linha é a primeira e a última coisa. É a via de avanço, é movimento, colisão, facetamento, combinação». Coloca já a ênfase no processo construtivo. A partir de 1918 faz a passagem à tridimensionalidade construindo estruturas espaciais. A práctica artística explora – não a via subjectiva – mas as propriedades elementares dos materiais, textura cor e linha.
A pintura de cavalete – levada às suas últimas consequências no célebre trítpico de monocromos, vermelho, amarelo, azul, exposto em 1921 na exposição colectiva do INKhUK de Moscovo 5*5=25 – será abandonada. Rodchenko procura responder a novas exigências recorrendoa novos materiais. (exigências formuladadas em 1918/19 por Ossip Brik, influente teórico do INKhUK, nas páginas da revista Arte da Comuna, Iskusstvo Kommuny, ligada ao IZO. O objectivo será estreitar a ligação entre a prudução artística e a indústria. A noção de composição dá lugar à noção de construção, baseada em princípios de organização tecnológica, próximos da engenharia. Traça-se um paralelismo com a revolução, como processo disciplinado ou científico de organização, numa visão utópica do impacto da tecnologia).

No IZO chega a funcionar uma secção de síntese entre arquitectura e escultura (Sinskul’ptarkh). Rodchenko desenha pequenas estruturas como o kiosque de 1919, uma peça móvel de mobiliário urbano destinada a propaganda e informação, com lugar para um placar, cartazes e uma banca de livros e jornais. Também há espaço para um relógio, colocado bastante acima dos utentes, como objecto paradigmático da organização e da disciplina do novo homem comunista – um pouco como a versão utópica revolucionária do relógio da estação de Austerlitz: O relógio belga submete à lei do império de Leopoldo; o relógio do quiosque ao poder do Estado soviético.
(É interessante verificar que ao nível do projecto de objectos de mobiliário de interiores, Rodchenko vai conferir muito mais poder ao utilizador, através de estruturas simples, como as do Clube dos Trabalhadores criado para a Exposição de Artes Decorativas de 1925.)
A encimar o quiosque, o slogan: «O futuro, o nosso único objectivo». Notem: a parte da propaganda ocupa muito mais espaço do que a banca de livros, situada no nível inferior. Deste modo há uma aceitação implícita e inquietante da desproporção entre o aparelho de comunicação e o cidadão comum.
É também um alinhamento decisivo com o lado industrializado, ou a industrializar, da União Soviética. Descarta as fontes populares que alimentaram uma boa dose da vanguarda russa (Larianov, Goncharova e os primitivismos da primeira década).
A importância dada ao tempo será uma influência de Tatlin (que introduzira Rodchenko no círculos das vanguardas).
Os construtivistas – no texto programático do primeiro Grupo Trabalhador do Construtivismo, ou em Construtivismo de Alexei Gan, ambos publicados em 1922 – destacam três elementos fundamentais: Tectónica, Faktura, Construção.
A primeira – tectónica – diz respeito à relação entre os elementos do comunismo e do estado da industria, como uma espécie de consciência do tempo que sintetiza a ideologia e o trabalho, (o modelo é o homem marxista educado que sobreviveu à arte e avançou para o material industrial).
a faktura é definida como o estado orgânico da material trabalhado ou o seu novo estado como resultado desse trabalho. A faktura requere a consciência e a atenção ao material e ao modo como ele sem deter as potencialidades e sem prejudicar a construção ou a tectónica.
Finalmente a construção é entendida como a função organizadora do Construtivismo.
A tectónica revela a relacção entre ideologia e a forma que dá unidade ao desenho práctico, a faktura é o material e a construção revela o processo dessa estruturação.
Na colectânea Art in theory, para além destes textos, encontram igualmente um texto de Ossip Brik, publicado na revista LEF – Frente Esquerda das Artes, criada em 1923 em torno de Mayakvoski. «Da pintura à estampagem» assinala a descida do pedestal da pintura; se a forma de comunicação passa pela agitação e pela propaganda então os meios devem adequar-se à circulação rápida e não à aspiração à eternidade.
Na arte produtiva, a aparência de um objecto é determinada pelo seu propósito económico. Os artistas devem unir-se à fábrica e a imagem mais expressiva desta união –um tanto descompassada – será a do artista em fato de macaco (uma imagem recorrente em vários momentos e lugares da produção de vanguarda).
Na verdade, os construtivistas ficariam praticamente à margem do esforço de industrialização da URSS, virado para a indústria pesada. Isto, apesar das posições que puderam tomar no ensino artístico, sob a tutela de Lunacharsky, o comissário do Narkompros. Ingenuamente, o Construtivismo julgou reconhecer as novas necessidades da nova classe (supostamente) no poder. Para lá da expectativa gorada e do desenlace traçado na instalação de Kabakov – o destino de muitos construtivistas foi trágico – é importante notar que as produções do construtivismo procuram redefinir o objecto artístico no novo contexto industrial, promovendo novas formas de imersão no espaço da imagem – para usar uma expressão de W. Benjamin. Com o Construtivismo a noção de objecto conhece uma dilatação, acolhendo não apenas a satisfação de necessidades imediatas mas também um certo potencial de mudança, de transformação de pensamento e acção. Há exemplos curiosos como o sofá-cama ou o quiosque portátil desenhados no Metfak um departamento do VhUTEMAS coordenado por Rodchenko.

Sobolev - sofá-cama
Mas o exemplo mais expressivo será provavelmente o Clube dos Trabalhadores, exposto na Exposição de Artes Decorativas de Paris em 1925.


Neste contexto internacional, o pavilhão que representa a URSS surge como espaço colectivo ligado ao universo do trabalho, onde o lazer se torna cultivo – com espaço de leitura, visionamento de filmes, audição de conferências. O mobiliário é austero e funcional, pontuado apenas por alguns pormenores menos comuns, como os tabuleiros de xadres que rodam para que os jogadores se possam sentar. Do ponto de vista da propaganda este efeito de contenção, contrastante com o luxo ostensivo de outros pavilhões acerta em cheio: No estrangeiro, o espaço da União Soviética passava por moderno, igualitário, ordenado e ilustrado. Se no contexto interno a ligação efectiva à indústria ficou por cumprir, este laboratório da dupla Melnikov/Rodchenko não deixou de funcionar como porta estandarte internacional (se virem o contexto da exposição encontram, sem surpresa, apenas um par possível no pavilhão de Le Corbusier).Mas é também uma certa utopia social espacializada: anti-monumentalidade, espaço horizontal de acesso e circulação livres.
Passemos adiante.
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Vejamos o trabalho de El Lissitzky para compreender a vertente utópica fenomenológica da vanguarda russa dos anos vinte. Inspirado por Malevitch, El Lissitzky cria os PROUN (Proekt utverzhdeniia novogo, projecto para a afirmação do novo).
El Lissitzky, de origem judaica, nasce em Vitebsk no sul da Rússia, cidada onde acaba por trabalhar no Instituto dirigido por Chagal. Nos primeiros anos, antes de 17, desenvolve um trabalho gráfico que sintetiza as tradições judaicas com as linhas da modernidade, (num momento em que era proibida a divulgação impressa do hebreu).
Em 1919 o Instituto de Arte Popular de Vitebsk contrata Malevitch. Malevitch traz um programa suprematista que dará origem – no seio do próprio instituto – ao UNOVIS (Proclamadores da Nova Arte) colectivo que avança noutras cidades, aplicando o suprematismo à dança, aos cartazes, à cenografia, às artes gráficas, etc.
Lissitzky faz entrar a forma tridimensional e uma forte compontente arquitectónica (teria tentado formar-se como arquitecto mas teria sido impedido pela segregação do regime czarista)
Em 1915, o texto «Do cubismo e Futurismo ao Suprematismo» de Malevitch fixa a nova via da arte na base do peso, velocidade e direcção do movimento. Existe claramente a preocupação com a experiência possível de uma 4ª Dimensão (numa tentativa de sinteziar a matemática, o ocultismo e a teosofia que ocupará várias vanguardas, dos cubistas aos futuristas, etc. Caberá aqui uma referência a Matiuskine que publicara um texto sobre a 4ª dimensão inspirado por Uspenski, um pensador que ligava a ciência e as matemáticas às teorias teosóficas. em 1913, Matiuskine foi também tradutor de Du Cubisme de Gleizes e Metzinger, um texto que procura divulgar a síntese entre as mesmas teorias e a pintura cubista).
Simplificando: tratava-se de ultrapassar a superfície estática da pintura para uma concepção da forma em movimento, dotada de múltiplos eixos ou relações possíveis. Malevitch recorre a planos simples, Lissitzky serve-se da axonometria e cria volumes que podem ser percepcionados de vários modos e em várias posições, numa leitura temporal que rompe o estatismo. Aparentemente, seriam formas arquitectónicas representadas bi-demensionalmente mas fugiriam a essa leitura para revelar uma espécie de organização e ordem superior. Um pequeno conjunto de formas elementares e universais poderia dar conta desse espaço-tempo, para lá do caos das impressões. O PROUN seria uma espécie de signo de uma ordem por vir, de uma transformação do mundo num verdadeiro modelo de perfeição, atraindo as pessoas para um espaço mais rarefeito e livre dos constrangimentos do trabalho e da intoxicação dos sentidos.
É talvez interessante seguir este projecto numa obra bem singular: a história «para crianças», publicada em livro em 1922 – escrita e desenhada em 1920 – por El Lissitzky, entitulada
A História Suprematista de Dois Quadrados em Seis Construções (Skaz Pró Dva Kvadrata v 6ti Postroikha), sub entitulada Conto Suprematista ou fábula Suprematista (Berlin: Skify, 1922).










Esta publicação distingue-se, pelo seu recorte, de publicações anteriores da vanguarda futurista, feitas propositadamente em papel barato com recursos artesanais.
O livro é aqui entendido como veículo de transformação social (a tradição da Thora, como fonte de ensinamento e de acção, será uma influência provável). Qual a acção promovida ou profetizada? Nada menos do que a construção de um mundo novo (novamente a escadaria de Kabakov).
O livro tem um sequência de seis imagens ou «construções» que desenrolam a história de dois quadrados extraterrestres, um vermelho e outro preto, chegados à Terra para assistir a uma tempestade. Depois da tempestade surge uma estrutura tri-dimensional no quadrado preto, coberta pelo quadrado vermelho. O quadrado preto recua mas não desaparece completamente. A proeminência de formas planas dá lugar ao espaço pluridimensinal típico do PROUN, depois à dispersão de elementos e, finalmente, a uma recomposição com uma superfície vista por cima, numa espécie de visão aérea.
Eis a sequência do texto (numa tradução do inglês):
– Não leias, pega em papel, pinos, blocos, dispõe, colore, constrói
– aqui estão dois quadrados
– voam para a Terra vindos de longe
– e vêem preto. Alarmante.
– Choque. Tudo se espalha.
– E no preto estabelece-se vermelho. Claramente.
– Aqui acaba. Adiante.
Há um precedente na obra de Malevitch que se aproxima muito deste trabalho: Realismo pictórico de um rapaz com mochila: Massas de cor na quarta dimensão. Mas é uma composição única e parece um tanto mais estática (tal como as 34 litografias publicadas por Malevitch).
A fábula suprematista de El Lissitzky procura novas formas de leitura para o livro. A regra da leitura na horizontal, encimada pela ilustração, dá lugar a composições diagonais e letras capitais de tamanho diferenciado. Um dos seus objectivos é a absorção rápida da informação, reforçada pela rarefacção do texto e pelo uso de tipografia de linhas simples. Cria também trocadilhos com palavras e formas (por exemplo: «De dois quadrados» utiliza letras : DE, 2 e um quadrado). A leitura reforça a dimensão visual, que tem por base o diagrama: os elementos podem ser combinados em várias formas globais, ou diferentes gestalt. Existem «núcleos de palavras» e transita-se de uns para os outros, como diferentes «concentrações de pensamentos». O livro procura articular o som e a imagem da palavra numa nova unidade, através de uma consciência fílmica – El Lissitzky falará de um livro-bioscópio.
Não há uma leitura linear da sequência – o quadrado vermelho pode ser o signo revolucionário de UNOVIS, mas o preto pode ser igualmente identificado com o grupo de Malevitch. A complementaridade dos dois e o modo como relacionam torna improvável a associação mais óbvia entre o vermelho e o bolchevismo. Talvez representem ambos aspectos de uma harmonia suprematista. Em qualquer caso, surge uma injunção no final: construam qualquer coisa.
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Voltemos à escada do vagão vermelho de Kabakov.
A sua referência principal será certamente o Monumento à IIIª Internacional de Tatlin, projectado em 1919 (Tatlin constrói um modelo em madeira que será exibido em 1920 em Petrogrado e Moscovo, no Congresso dos Sovietes). Esta construção deveria ter 400 metros, para suplantar a Torre Eiffel. Foi também divulgada em 1920 num panfleto de Ivan Puni.
Há antecedentes num monumento ao trabalho proposto por Rodin em 1893, que teria um grande cilindro espiralado com uma figura no topo. Há também a analogia do zigurate.
Naturalmente aqui a ideia de funcionalismo está arredada e a construção deste monumento em ferro – o único material que poderia suportá-la na altura – levanta problemas intransponíveis. A sua estrutura têm um papel claramente simbólico:
de um ponto de vista ideológico, o estreitamento do espaço à medida que se sobe materializa uma noção do processo de tomada de decisões e do mecanismo de poder; de um ponto de vista arquitectónico ou artístico, afasta-se do propósito tradicional do monumento. Mais do que um símbolo de memória colectiva de um momento passado, celebra o tempo em curso, como tempo de evolução permanente.
As espirais parecem inclinar-se para a frente e para cima – como a escada de Kabakov – suspensas por um contraforte oblíquo. As estruturas em vidro têm as formas do cubo, em baixo, da pirâmide no meio e do cilindro em cima. Foram projectadas para cumprirem diferentes funções (1 - sala para grandes reuniões e acções de legislação, 2 escritórios para administração 3 – projecção e emissão de notícias e propaganda, estação telegráfica e de rádio) e deveriam girar com rotações de duração distinta (o cubo um ano, a pirâmide um mês e o cilindro um dia). Deste modo, o tempo astronómico entra literalmente na constituição da obra. A Torre de Tatlin assemelha-se a um telescópio e parece querer ligar céu e terra com as suas duas espirais em movimentos contínuos que se estendem para lá do perímetro visível da estrutura. Como se tratasse de um parafuso continuamente em movimento. Embora não tenha fachada não deixa de apresentar uma frente e uma parte traseira como um corpo inclinado para diante (comparável à Forma Única de Continuidade no Espaço de Boccioni que avança com um passo vigoroso). Nesse sentido, para além do telescópio pode ser entendida de um modo antropomórfico. Como se existisse uma espinha em tensão sustentando as costelas. Esta analogia teria de ser aplicada cuidadosamente dada a rejeição declarada de qualquer figuração ou representação particular ou individualizada do corpo humano. O que se pode considerar aqui é um corpo social mais vasto, representando genericamente o trabalhador ou o habitante do futuro.
E nesse sentido Tatlin parece recuperar a noção de homem do futuro formulada pelo poeta Khlebnikov bem como a ideia de uma futuridade com influência no presente, (como se existisse um modelo matemático de grandes eventos históricos.)
Ainda mais do que no quiosque de Rodchenko, o tempo aparece no centro da construção, transformada num enorme relógio cujo ritmo se mede por uma lei universal.
(Apesar de toda a apologia da técnica há uma tradição mística que entra por aqui. O livro de Uspenski,Tertium Organon: Chave para as Leis do Universo com as suas sínteses de ciências e esoterismo, parece ainda ter uma palavra a dizer nestas concepções de ligações e relações secretas entre eventos e espaços muito distintos. Como se o tempo se espacializasse como se o tempo fosse um fluxo tal como a própria humanidade tomada como um corpo que pode ser percebido apenas na intersecção do «agora».)
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Tatlin, Rodchenko, Malevitch e El Lissitzky têm um percurso anterior. As preocupações com a faktura ou com a unidade de som, imagem, significado, estão já inteiramente presentes no cubo-futurismo.
Por exemplo: apesar das diferenças e do salto para o domínio da arquitectura, podemos procurar alguns antecedentes nas construções de Tatlin desde 1913.
Através dos contactos de Alexandra Exter, Tatlin viajou até Paris e pôde visitar o atelier de Picasso, em 1913. Nesse ano segue em digressão com músicos de folcore ucraniano –toca bandura. Picasso recordará Tatlin por tocar acordeão no seu atelier. Comunicavam por gestos e Tatlin mostrava-se muito receptivo ao Cubismo.

Depois de ver a guitarra de Picasso, Tatlin passará os anos seguintes a reflectir sobre as questões do relevo e da montagem tridimensional, mas introduz uma preocupação central com a «faktura» e com um trabalho que decorre exclusivamente das diferentes propriedades dos materiais empregues: metal, madeira, vidro, cartão, ferro, gesso etc. As superfícies surgem marcadas por fumo, pó, etc. incorporando a própria história ou as marcas deixadas nos materiais. Os jogos de cor resultavam da exposição nua dos materiais, sem os jogos irónicos entre a simulação e a superfície da colagem cubista.
As qualidades dos materiais deveriam ser explicitadas pelas suas relações. O controle rítmico e a construção deriva do material e do tratamento que se lhe pode dar.
(Isto tem afinidades com o manifesto da escultura do futurista Boccioni.
Embora entre os russos exista um antagonismo entre futurista, adeptos da máquina, e budetlyane, de Khlebnikov, habitantes do futuro, ou aqueles que hão-de ser)

Entre a vanguarda russa Tatlin não está naturalmente só nas suas pesquisas. Por exemplo, Kamenski expôs uma composição com um peso de metal em frente de uma folha metálica, sobre fragmentos de um avião. O embate produziria poemas «ferro-concretos».
O trabalho dos poetas constitui também um antecedente para os relevos. Em ambos os casos está presente a preocupação com o material.
Há uma colectânia em português publicada na Arcádia sob o título «Textos futuristas russsos». Inclui os manifestos do grupo LEF. Um dos seus textos programáticos faz apanhado histórico curioso. Leitura de Programa de LEF:
Os partidos revolucionários contestavam a própria existência, a arte transformou-se num dos seus instrumentos.
Primeiro arranque impressionista em 1909 (recolha «O Viveiro dos juízes»).
Três anos a soprar esta chama.
O futurismo sai dela.
Primeiro livro do grupo futurista: «Uma bofetada no gosto do público»
O velho regime não se enganava sobre o trabalho de laboratório dos futuros dinamitadores. Aos futuristas respondia-se com a tesoura da censura, a interdição das manifestações públicas, os gritos e apupos de toda a imprensa diária.
O movimento futurista, conduzido por artistas que pensavam pouco na política, estava por vezes enfeitado com as cores da anarquia.
O futurismo russo rompeu definitivamente com o imperialismo poético de Marinetti, depois de já o ter assobiado durante a visita a Moscovo (1913).
Após separações e tomadas de posição, traduzidas por depurações, afirma-se no mesmo texto um Futurismo de esquerda :
os «bolcheviques da arte» (Maiakovski, Kamenski, Bourliuk, Kroutchnik.
A estes juntam-se os primeiros «futuristas construtivistas (Rodchenko, Lavinski) e futuristas produtivistas (Brik, Arvatov) […]
Fornecíamos as primeiras obras de arte da época de Outubro (Tatlin: Monumento à Terceira Internacional)
O LEF vai.
Prosseguir para consolidar as conquistas da revolução de Outubro reforçando a arte de esquerda. O LEF vai fazer na arte a propaganda das ideias da Comuna abrindo-lhe a estrada do futuro.
O LEF vai fazer a propaganda nas massas com a nossa arte, apoiando nelas a força da organização.
O LEF vai confirmar as nossas teorias através de uma arte activa, elevando-a à mais alta qualificação profissional.
O LEF vai lutar por uma arte-edificação da vida.
Asséev, B. Arvatov, O. Brik, B. Kouchner, V. Maiakovski, Sergei Trétiakov, N. Tchoujak
Retomemos um trecho do manifesto Uma Bofetada no Gosto do Público (1912):
Uma Bofetada no gosto do público: Defesa da arte livre
Exigimos o respeito pelo direito dos poetas:
1 – A Aumentar em volume o vocabulário poético com a ajuda de palavras arbitrárias e derivadas (novação verbal)
2 – A uma raiva irreprimível pela linguagem existente antes deles.
3 – A arrancar com horror da sua fronte orgulhosa a Coroa, feita por vós duma vassoura de palha e duma glória de dois patacos.
A erguer-se sobre a rocha da palavra «nós», entre um mar de apupos e indignação.
E se ainda neste momento subsistem nas nossas linhas os estigmas pouco saudáveis do vosso «bom senso» e «bom gosto», já nelas palpitam pela primeira vez, os clarões da Nova Beleza do Verbo Autoválido ou Autosuficiente (samovitoe slovo que talvez tenha melhor tradução em a palavra como tal)
Moscovo Dezembro, 1912 Burliuk, Krutchenykh, Mayakovski, Khlebnikov
A procura de um material elementar e a ideia de faktura são portanto anteriores ao Construtivismo. Mas no centro do cubo-futurismo russo, em vez de um trabalho modelado pela engenharia ou pela tecnologia, encontramos o Zaoum, uma experiência de linguagem.
Em A palavra enquanto tal ou na colectânea O Mundo ao Contrário – (Mirskontsa, Moscovo, 1912), ilustrada por Larianov, Goncharova, Tatlin e Rogovin – surge a demanda pelo verbo autosuficiente. Trata-se de passar a barreira utilitária e actual da linguagem, dominada por regras gramaticais e pela lógica, para atingir uma linguagem original, em conexão directa com as emoções.
Pomade de 1913, de Kroutchnik seria talvez a primeira obra a utilizar plenamente a linguagem Zaoum (za para lá, oum, sentido, ou para lá da mente, transmental).
Alexei Krutchenik usou vários vocábulos de línguas eslavas e caucassianas, na procura de uma língua mãe. Nesta demanda tornam-se centrais as unidades fundamentais do som, da letra ou da imagem da letra: as palavras, libertas do seu sentido convencional, grito primordial e simultaneamente «directo». A linguagem transmental seria a língua do futuro, universal.
Velimir Khlebnikov cria um sistema de hieróglifos. Ao contrário das línguas orientais – que embora tenham uma base ideogramática não ligam o som aos conceito – o «alfabeto da mente» apresentado por Khlebnikov num ensaio intitulado «Aos artistas do Mundo – Uma linguagem escrita para o Planeta terra: um sistema comum de Hieróglifos para o Povo do nosso planeta» tenta articular as três vertentes (imagem, som, ideia).Trabalhando exaustivamente as raízes, seria possível associar aos sons elementares uma ideia visual correspondente, representável por símbolos.
K, por exemplo, significaria coesão, o som V seria como uma onda, CH «o espaço vazio de um corpo contendo o volume de outro corpo». (como em cherep, crâneo, chulok, meia, ou chashka, chávena). A poesia centrar-se-ia na unidade de som, com um sentido independente do significado actual das palavras compostas. Ao som de cada consonte estaria associada uma ideia visual, um hieróglifo. Para Khlebnikov os corpos simples da linguagem – os sons do alfabeto – seriam «os nomes de vários aspectos do espaço, uma enumeração dos eventos da vida do espaço». A linguagem planetária diria respeito não apenas à comunicação humana mas a uma sintonia mais vasta entre a natureza e os movimentos do universo. A sua poética universal retomaria o mito da linguagem dos pássaros, divina e incorrupta, associada a uma sabedoria secreta. Esta utopia linguística está presente em A encantação do riso, de 1908-09, uma composição de variações com sufixos e prefixos da palavra smeck «riso». Esta repetição acaba por criar um efeito de estranheza, no qual o lado material e a desconexão entre o som e o significado da palabra composta se tornam evidentes (em crianças fazemos estas experiências repetindo uma palavra até à exaustão, como se encontrássemos uma música na língua que evoca ritmos presentes nos corpos vivos).
Kruchenykh teve uma abordagem menos formal. Ambos procuraram alternativas à influência cultural da Europa, mas no caso de Kruchenykh será sobretudo importante a cultura popular no seus aspectos mais dissonantes (encontrados, por exemplo, nas línguas inventadas pela seita dissidente Khlysty, do profeta Siskov).
Em 1922 num texto que avalia 10 anos de criação Zaoum, Krutchenik salienta três aspectos da sua criação: a diversão alegre, a técnica fónica intensa e a descoberta de enigmas de palavras, e do próprio universo. Estas três vertentes estariam já presentes em 1913 no livro entitulado VZORVAL (Explodidade) em que estariam fortemente presentes a glossolália.
O poema «Dyr bull Scyl», incluído em Pomada, é composto apenas pelas vogais 0 E U/ 0 U 0/ A E/ E E/ I I/ U J U. O jogo de palavras seria uma constante da poeisa de Krutchenik (o «Jesuíta das palavras»). Tal como os irmãos Vladimir e David Burliuk, Khrutchenik tinha uma paixão pela letra. Mas desconfiava da tipografia e da letragem mecânica e procurava antes a reprodução litográficas da letra manuscrita (vejam por exemplo as obras conjuntas com a sua mulher Olga Rozanova). Num manifesto intitulado A Letra enquanto tal, Kruchenykh e Khlebnikov defendem que a tipografia não consegue devolver o dinamismo das palavras e a sua forma. Oferecem como uma alternativa enérgica os letreiros pintados da arte popular a gravura tradicional do lubok, a arte das crianças e dos loucos. Aí, reconheceriam a «vida das letras». Como noutros pontos da Europa, as tradições marginais ou não eruditas ofereceriam um modelo à vanguarda.
A Guerra Universal: Ъ (Vselenskaia voina. Ъ) (Petrogrado: [Andrei Shemshurin], 1916) edição de 100 copies, tem apenas, duas páginas de texto. Depois tem 12 colagens abstractas de Kruchenykh e de Olga Rozanova. O subtítulo é curioso: a letraЪ (tverdyi znak ) é uma letra silenciosa, usada depois de uma consoante para sublinhar a sua dureza. Colocada no centro da capa, ganha proeminência pelo que é, um signo em si mesmo, forma liberta do seu uso habitual.
Se olharmos novamente para a obra de El Lissitzky Sobre Dois Quadrados… (Pro dva kvadrata) (Berlin: Skify, 1922), há princípios formulados nas obras de Kruchenykh que também parecem presentes; a importancia da economia e a procura de uma transmissão não fónica, mas sim óptica das ideias.
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Nota:
Recuando um pouco no fascínio pelas artes gráficas «marginais»:
Alfred Jarry – Pere Ubu – imagens d’Epinal – Criou uma personagem o Pére Ubu, tomando como alvo um antigo professor de liceu. Convém lembrar que Jarry desenvolverá a patafísica, uma ciência de «soluções imaginárias» que estudaria as leis dos eventos singulares –lançando bases para um prolífica via da vanguarda. As suas ideias envolvem também as noções da quarta dimensão. Apollinaire foi seu amigo e Picasso ficou fascinado com a personagem. É um exemplo de uma construção ideossincrática que será retomado por Duchamp. Publicou L’Ymagier revista que recupera e articula com a modernidade vários exemplos de artes gráficas de tradição popular.
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Notas avulsas sobre a fotografia no Futurismo
No domínio da pintura há um primeiro momento dominado pelo divisionismo e por uma ideia de «interpenetração dinâmica das formas» que deveria transmitir o próprio dinamismo das sensações – tal como surge no Manifesto da Pintura Futurista de 1910 – passando de uma «aparência acidental individual a uma aparência típica, simbólica universal» (novamente a demanda de uma espécie de arquétipo universal da experiência)
Também na fotografia vão surgir experiências curiosas. Anton Giulio Bragaglia que a partir de 1906 trabalha no estúdio de cinema em Roma gerido pelo seu pai junta-se ao Futurismo e assina um manifesto sobre a fotografia entitulado «Fotodinamismo». Realiza também alguns filmes – Thais, Pérfido Incanto. A sua concepção de fotografia não procura isolar instantes de uma sucessão mas sim passar a sensação de movimento e transmiti-la num fluxo ligado por uma atmosfera. A transparência dos corpos altera a sua aparência como se permitisse experimentar um contacto com um corpo em desaparição, feito de movimento e aceleração. Bragaglia falará de uma «essência interior das coisas» mas que estaria em perpétua interpenetração com o espaço e com outras coisas. Estas experiências são indissociáveis da demanda por uma experiência de espaço-tempo que já não radica na perspectiva tradicional.
Nesse sentido aproxima-se das concepções da pintura futurista.

Outro fotógrafo ligado ao futurismo, atestando a sua vertente internacional, é Coburn, um fotografo americano naturalizado inglês, ligado ao Vorticismo, vertente britânica do futurismo. Em 1916, Coburn cria um vortoscopo, um instrumento de espelhos facetados que cria um efeito de caleidoscópio. A imagem captada surge fragmentada e torna-se abstracta criando uma interpenetração de elementos.